segunda-feira, novembro 28, 2005

«Quem conta um conto...»


Variadas vezes temos visto, nos últimos tempos, em publicações de vária índole, referências à aldeia de Boassas como sendo a "2.ª Aldeia Mais Portuguesa de Portugal". Ora como não pretendemos ser "donos" do que nos não pertence, nem queremos ter louros que se sustentem em falsas verdades, teremos que providenciar o esclarecimento que se impõe acerca deste assunto. É que se a publicação de tais erros em opúsculos de divulgação turística, como o que lançou a Câmara Municipal de Cinfães em 2003 (Cinfães, Roteiro Turístico), são apenas lamentáveis e não têm repercussão, outros , manifestamente já não serão tão aceitáveis, como por exemplo nos "sites" "Portal Turístico do Douro" e SCETAD-"Espigueiro" (também da responsabilidade da Câmara Municipal de Cinfães); ou ainda no "site" da ADVBestança (e ficamo-nos apenas pela "internet" para não ferir a susceptibilidade de supostas "honrosas" publicações e trabalhos académicos). Abreviando, uma vez que seria fastidioso e dispiciendo enumerar agora todos os escritos onde vamos encontrando a mesma torpe afirmação, vamos então tentar explicar o que realmente terá sucedido, deitando mão, como vem sendo hábito, ao "Uma Aldeia Com História". Assim:

«Um dos momentos mais altos da história da povoação de Boassas foi, sem dúvida, a sua participação em 1938, no concurso “A aldeia mais portuguesa de Portugal”. No Largo da Capela ou Avenida Pinto Branco, em frente à Casa do Cerrado, ainda hoje se pode ver uma lápide comemorativa da efeméride, com a seguinte singela inscrição - “VIVA BOASSAS - 1938". Deste acontecimento são ainda hoje recordados pela população mais idosa alguns acontecimentos, nomeadamente a participação activa e empenhada da célebre escritora Carlota de Serpa Pinto. De facto tudo parece ter contribuído para que o momento tenha sido excepcional e para que a participação de Boassas tenha sido memorável.
A aldeia atingia o seu apogeu.
O caminho de ferro não tinha conseguido dar ainda o golpe de misericórdia nos bojudos barcos rabelos e consequentemente nos seus intrépidos marinheiros, tarefa postergada nos carrascos portentosos que haveriam de ser as barragens do Douro das vindouras décadas de 60 e 70. As sardinheiras galgavam lestas o caminho da serra de Montemuro, fazendo uma ponte humana entre as margens do Douro e “da Paiva”. O comércio florescia em dezenas de mercearias, tascos e lojas. A agricultura desenvolvia-se em torno da povoação, que parecia uma autêntica cascata num idílico jardim e os seus frutos, com que se atulhavam os ditos rabelos, eram trocados, no Porto, por outros bens e produtos que aportavam constantemente à aldeia.
Ainda não havia chegado a emigração (e imigração) e com ela(s) o despovoamento, o abandono das terras, das casas, dos campos e da própria alma dos que, por um motivo ou outro sobreviveram a esta autêntica sangria. Terá sido, provavelmente, a época em que mais população houve na aldeia. Esta, fervilhava de bulício e animação. Os bandos de crianças, em algazarra, brincavam e corriam pelas ruas e calçadas. Ouvia-se o martelar sincopado dos latoeiros, o escopro dos pedreiros, a plaina do marceneiros, o malhar do milho e do centeio pelas eiras, o cantar alegre das moças que iam buscar a água à “Fonte-da-Pedra” e o chilrear irritante dos carros-de-bois. O alfaiate, o “Toca-o-fê”, tirava as provas dos fatos com que se iriam abrilhantar festas e cerimónias, o barbeiro cuidava de melhorar a aparência de algum mais hirsuto transeunte e o retratista captava para a posteridade os momentos desses momentos únicos. Da Gralheira, do cocuruto da belíssima serra do “Monte de Mouros”, vinham os entendidos nas artes de moer a azeitona e fabricar o precioso e dourado líquido com que então se iluminavam ainda muitas casas. Pelo “Caminho da Costa”, o moleiro e seu cavalo traziam do moinho a farinha com que, nos fornos, se iria confeccionar o pão, em broas enormes de casca estaladiça e também os bolos de sardinha, que impregnavam o ar de aromas de fazer crescer água na boca aos mais incautos gargântuas e pantagruéis.
A vida decorria sem grandes sobressaltos... Nas portas das casas viam-se as chaves nas respectivas fechaduras. Barulho e refregas também as havia de quando em vez, sobretudo ao fim da tarde, quando Baco fazia os seus etéreos efeitos, à porta das tascas e tabernas. Mas também quando no verão, havendo falta de água, começava também a faltar a paciência pela espera, provocada por alguém que havia exagerado a quantidade de cântaros que um mísero fio de água iria encher. E então, porque este era um serviço de mulheres, era uma gritaria, um alvoroço, um vê-se-te-avias de cacetada, cabelos puxados e insultos de fazer corar as pedras da calçada. Acontecimentos logo esquecidos e perdoados no dia seguinte à saída da missa, pois que o Sr. abade, fazia questão de salientar que “verdadeiro cristão só aquele que sabe perdoar”.
E assim se passavam os dias nessa época já longínqua, em que, malogradamente, não quis a sorte que o famoso “Galo de Prata” viesse cantar para o cimo do campanário da capelinha de Nossa Senhora da Estrela, mas sim para as longínquas e graníticas paisagens da Beira, onde ainda hoje abrilhanta a capela local da aldeia de Monsanto.
O próprio evento do concurso da “Aldeia mais portuguesa de Portugal” é ainda referido e lembrado de quando em vez, por homens de letras e jornalistas, como faz, por exemplo, o escritor Guido de Monterey:

«Apesar de todos os pergaminhos com que, desde sempre, se adornou, o lugar de Boassas apenas se abriu para o país ao ser seleccionado para o concurso “A aldeia mais portuguesa de Portugal”, no ano de 1938. Promovido tal concurso pelo Secretariado de Propaganda Nacional, Boassas teve a honra de ser a povoação escolhida para representar a província do Douro Litoral, dado o afastamento prematuro de uma outra do concelho de Arouca (MERUJAS). Como prémio, um “galo de prata”. O Júri que, há dias esteve neste concelho, escolheu o populoso e comercial lugar de Boassas para concorrer ao “Galo de Prata”. Oxalá tenhamos, em breve, o prazer de ver o referido “Galo” na torre da linda capelinha de Nossa Senhora da Estrela. (Do jornal “O Comércio do porto”, notícia de 23 de Junho de 1938).
Participando, por escolha, 22 povoações do Continente, dez foram eliminadas de início, por não possuírem os requisitos exigidos pelo referido concurso. Ficaram, portanto, doze. Entre estas, Boassas. Após a visita do júri, a cada uma das aldeias concorrentes, reuniu este, em Lisboa, a 7 de Outubro de 1938. Em tal sessão, das doze em confronto, mais seis foram eliminadas. Boassas fazia parte destas.»
[MONTEREY, Guido de - Terras ao léu, CINFÃES, (págs. 331/332)]

Assim, o cobiçado “Galo de Prata”, símbolo da “Aldeia mais Portuguesa de Portugal”, acabaria pois, como foi referido, por ir parar à povoação de Monsanto da Beira, que com isso beneficiou de significativa projecção e relevância, encontrando-se hoje devidamente preservada, sendo visitada diariamente por centenas de turistas, estabelecendo um violento contraste com Boassas, que se despovoou, perdeu grande parte das suas tradições, dos seus usos e costumes, e cujo património continua constantemente a ser destruído. Isto, com o beneplácito das próprias autarquias, quando não com a sua própria colaboração, perdendo-se assim as (poucas) possibilidades de desenvolvimento e de melhoria da qualidade de vida da população que, desta forma, não cessa de abandonar a aldeia.
Será caso para afirmar, tivesse Boassas ganho o concurso e, com certeza, “outro galo cantaria”...» (in "Boassas Uma Aldeia Com História" de Manuel da Cerveira Pinto)

É esta, pois, a história da "2.ª Aldeia Mais Portuguesa de Portugal" que, na realidade poderia, quando muito e na melhor das hipótese ter apenas direito a um honroso 7.º lugar. O que se poderá dizer, certamente, é que Boassas foi à meia-final do referido concurso. Nunca que ficou em 2.º lugar. Mas é assim, "quem conta um conto"...