quarta-feira, julho 06, 2005

Este ano não há festa de Boassas


Triste sinal dos tempos. Este ano não há a tradicional festa de Boassas, em honra de Nossa Senhora da Estrela e que se costuma realizar sempre no final do mês de Agosto. É um facto lamentável e que dá que pensar. A povoação perdeu a maior parte da sua população residente nas três últimas décadas. Os que permanecem são sobretudo os idosos, a quem vai faltando a força e paciência para manter vivas as tradições... Não será também descabido fazer uma analogia entre o que se passa em Boassas (e também um pouco por todas as aldeias do concelho) e por contraste na sede do concelho, cujas festividades atingem um fausto, esplendor e gastos nunca vistos. Contribui-se, assim, alegremente, para um dos principais, senão o principal problema do concelho... o despovoamento das aldeias e o abandono do mundo rural. Embasbacados com o poder, cegos e surdos com o estrelejar dos foguetes, nem se dão conta do certificado de óbito que vão passando a uma crescente parte da população do concelho... Claro que há outros factores, entre os quais há que referir aquele que me parece o mais importante e significativo: o aviltamento e descaracterização que tem sofrido ao longo do tempo a própria festa. Penso que só um esforço em recuperar as tradições mais peculiares, em aumentar a qualidade da animação cultural, em captar também outro género de público poderá levar a um "renascer" da festa de Boassas. A "Nossa Senhora da Estrela" por certo agradecerá...

(Photo by Sónia Constante . All wrights reserved)

2 comentários:

Sónia Constante disse...

A não realização da festa em Honra da Nossa Senhora da Estrela não se limita à idade da povoação mas sim e principalmente devido aos esforços monetários e mesmo ao desgaste fisico e psicológico que esta festa impulsiona aos mordomos. Eu já vivi de perto este desgaste e não é fácil. E as ajudas monetárias também são muito trabalhosas de adquerir, representam semanas a percorrer várias localidades.

APOBO disse...

Também não é dito que se limita à idade dos seus habitantes (embora seja um factor, óbviamente, preponderante). Tal como se afirma, será um conjunto de factores, entre os quais, volto a frizar, a própria descaracterização que a festa vem sofrendo...
Há que procurar outros apoios, sendo que para isso será necessário, forçosamente, uma alteração ao modo como a festa vem sendo realizada. Eu próprio já assisti a pessoas que em chegando ao centro da aldeia e deparando-se com o barulho infernal debitado pelos altifalantes que "decoram" a capela, terem voltado a entrar no carro, dar meia volta e ir embora... Isto não é positivo. A povoação não se pode dar ao luxo de "correr" assim com os visitantes. Há que repensar uma estratégia, que aliás parece-me começou já a ser estabelecida em alguns pontos positivos, como é o caso do cortejo etnográfico (já aqui documentado). A ver vamos...