quinta-feira, maio 03, 2007

Quem tem medo do...cânhamo?


Vem este artigo a propósito do interesse despertado por um apontamento colocado por José Rui Fernandes no seu brilhante "Quinta do Sargaçal" intitulado "Cânhamo contra as lagartas das couves". Neste artigo e respectivos comentários ficamos a saber algo mais sobre esta extraordinária planta, nomeadamente quanto ao efeito que provoca nas lagartas das couves e nos canários... Algo mais podemos porém acrescentar, até porque cremos que muitos mitos existem em torno desta planta. Aqui ficam algumas "dicas".

O cânhamo
(Cannabis ruderalis)

O cultivo do cânhamo em Portugal é legal (tal como em toda a comunidade europeia) e subvencionado. No entanto temos que ter em consideração que a estirpe tem de provir de semente devidamente certificada de forma a que esteja garantido que o teor de THC (toxicidade) seja inferior a 0.3. É uma planta com qualidades, no mínimo, impressionantes. Por exemplo: pode render entre 4 a 5 vezes mais pasta de papel que uma área equivalente de floresta (ou eucaliptos).

Como é uma planta anual não obriga a monocultura, podendo até ser integrada com vantagem, na rotação agrícola. Produz duas a três vezes mais fibra têxtil que uma área igual de algodão, mas sem necessidade de utilização de pesticidas ou herbicidas, podendo por isso ser um produto 100% biológico, tornando as roupas particularmente indicadas para as crianças. A semente fornece óleo de alto valor nutritivo, rico em proteínas, vitamina B e ácidos insaturados, inclusive o ácido linoleico, sendo por isso um excelente óleo alimentar. O óleo é também usado frequentemente no fabrico de cosméticos. Os desperdícios podem ser usados como material de construção (reboco de paredes, isolamento térmico, etc...), biomassa, plástico (!!), etc.

Trata-se ainda de uma das primeiras plantas medicinais a ser usada pelo Homem, sendo o ÚNICO medicamento eficaz no tratamento do glaucoma e permite tratar outras doenças, como as náuseas da quimioterapia, a esclerose múltipla, paralisias graves, asma, depressão, etc... Isto, note-se, com uma toxicidade relativamente baixa, se comparada com os medicamentos químicos e convencionais.

Supõe-se que tenham sido os romanos a introduzir o cultivo do cânhamo para Portugal e é no período dos Descobrimentos que o cultivo atinge o seu auge, pois com a fibra extraída da planta eram fabricadas as cordas e velas dos navios. Cai posteriormente num período de esquecimento, tendo ressurgido no período do Estado Novo, que em 1937 relança o seu cultivo com uma campanha de produção intitulada "Pró-Cânhamo". O cultivo mantém-se até 1971, altura em que, graças a pressões internacionais, nomeadamente dos EUA, o seu cultivo é proibido.

No entanto sabemos que o cultivo do cânhamo foi permitido nos EUA durante a segunda guerra mundial, para facilitar a produção têxtil de material de guerra (fardas, tendas, cordas, etc...), tendo sido lançada uma campanha que se intitulava "Cânhamo para a Vitória". Com o fim da guerra voltou a ser proibido (!!). As próprias calças "Lewi's" (passe a publicidade) eram inicialmente feitas de cânhamo e a primeira campanha publicitária dizia: "Umas calças para toda a vida" (Num mundo consumista percebe-se muito bem porque falhou o seu fabrico neste material...)

O cânhamo é cultivado em todos os continentes e está a ressurgir na Europa, com especial incidência em França, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Holanda, Áustria, etc...

Em Portugal há uma empresa chamada "Cânhamo de Portugal", devidamente certificada (desde 1999) que comercializa (e produz) diversos produtos em cânhamos, desde materiais de construção, produtos alimentares, vestuário, cosméticos, sementes, etc...

Há relativamente pouco tempo um dos directores desta firma deu uma aula prática na Faculdade de Arquitectura do Porto, à qual assisti, sobre a fabricação de tijolos feitos à base de cânhamo.

É isto o que posso dizer - e acho que dá muito que pensar.

(A imagem foi retirada da "Wikipedia", onde muito mais se pode ler sobre este tema e a quem agradecemos...)

2 comentários:

Joao Soares disse...

Viva, caro Manuel
Vim retribuir e agradcer o teu comentário no BioTerra
Os meus parabéns pelos 2 anos do blogue e todo o vosso esforço e exemplo de desenvolvimento (g)local.Venham mais anos de óptimas leitura e mais "conquistas"
Abraço amigo
João

APOBO disse...

Caríssimo João
Que grata surpresa ver-te de novo aqui pelo nosso humilde "Boassas"...
Nada tens que agradecer, é sempre um prazer visitar o "BIOTERRA". Obrigado pelos parabéns (não somos muito de comemorar aniversários... mas obrigado na mesma) e sobretudo pelas palavras de apreço.
Abraço forte
Manuel da Cerveira Pinto